Abri lentamente meus olhos e depois os fechei rapidamente devido a luz. Os abri mais uma vez e o incômodo ocular diminuiu até acabar completamente. Meu corpo estava dormente e senti uma sensação estranha em minha pele, especificadamente, nos braços.
- Onde... onde estou? - perguntei ao nada com a voz fraca. Seria o Céu ou o Inferno? Inferno, não? Aqueles que acabam com a própria vida vão para lá. Suicídio é pecado porque estará batendo Deus no seu próprio jogo, certo?
- Você tentou se matar e está no hospital. - uma voz masculina me respondeu. Deduzi rapidamente que era um médico, pois pude notar que sua voz não era conhecida mesmo estando distante.
Olhei em volta, sem mexer a cabeça, e percebi que estava usando aqueles pijamas toscos de hospital, estava em um quarto de hospital, em uma cama de hospital...
Enfim, eu estava em um hospital.
Falhei até em me matar.
De alguma forma, aquilo me aturdiu. Senti um misto de surpresa e desespero, como se eu tivesse me esquecido de minha tentativa de suicídio fracassada ou não estava ciente do que estava fazendo no momento.
Mas de certa forma, sim, eu não estava totalmente ciente do que estava fazendo (inclusive, ingeri uma certa quantidade de álcool que, inclusive, me fez falar certas besteiras). Estava cego. Dor, tristeza, desesperança, sensação de que não é - e nunca vai ser - suficiente, todos esses sentimentos e mais outros tecem juntos uma venda que nos cega, nos fazer perder a razão, o raciocínio lógico.
Como o amor.
Mas então perguntas começaram a martelar na minha cabeça.
Quem me salvou? Beyond? Eu não havia trancado a porta? Ele não estava dormindo? E por que ele se importaria? Ele viu meu recado? Quem está responsável sobre mim aqui? Watari? Roger? L? Será que algum deles está aqui? - essas e mais outras perguntas não deixavam minha cabeça. Procurei com o olhar novamente o médico que me respondeu antes.
- Quem...? - fui interrompido.
- Seu responsável virá aqui agora falar com você. - e saiu do quarto sem mais delongas. A porta fez um barulho suave ao fechar. Fechei os olhos e me concentrei nos sons, esperando os barulhos suaves da porta abrindo-se e fechando. Os sons vieram, acompanhados de passos. Senti a presença de alguém ao lado da cama, no entanto não abri os olhos.
- A?
Watari. Sua voz inundou meus ouvidos e me fez sorrir. Eu adoro Watari. Sua presença passa uma ideia de paternidade, calor, conforto e afeto. Abri meus olhos e o encarei, coisa que me arrependi depois. Por quê? Watari me considera como filho, não é uma coisa muito boa quando seu filho tenta se suicidar. Mas ele apenas sorriu para mim e começou a falar com seu típico tom tranquilo.
- Como está se sentindo?
Quebrado, entorpecido, ferido, sem esperanças, deprimido, fraco, vazio, idiota, sozinho, estranho, tenho a sensação que tem um buraco no meu peito e quero me jogar da janela pra ver se consigo morrer dessa vez. Mas eu estou bem, sério.
- Acho que me deram uns anestésicos, então me sinto meio dormente.
- Você não cortou muito fundo, vai ficar bem rápido.
- Legal...
Eu queria questionar sobre B e o bilhete, mas não o fiz. Eu não me sentia bem para falar sobre isso, uma dor no peito que me impedia de tocar nisso.
Seguiu-se um momento constrangedor de completo silêncio, Watari permanecia em pé ao meu lado, sorrindo e com as mãos atrás do corpo.
- Desculpe, Watari. - falei com a voz fraca, sentindo um nó na garganta e parecia que o buraco da camada de ozônio trocou de lugar com o meu peito. - Desculpe por ser tão fraco, desculpe por desistir, desculpe por não conseguir suportar tudo isso enquanto B está completamente bem, desculpe por não ser inteligente o suficiente e decepcionar a todos, des...
- Basta, A. Você não desistiu, não é incapaz e não decepcionou ninguém. Descanse, você merece e precisa. - sua voz ainda mesmo que severa, era carinhosa.
- Certo. - respondi com um fio de voz.
O senhor colocou a mão no bolso, retirando de lá um relógio de bolso do qual ele olhou por alguns segundos e olhou preocupado para o mesmo.
- Perdoe-me a visita ser tão rápida, A. Irão notificar Roger quando você melhorar para mandá-lo de táxi para o orfanato, onde o receberão na porta. Já os avisei para os colocarem de novo com a Sra. Warren.
Sra. Warren era uma senhora de aproximadamente 45 anos que trabalhava como psicologa das crianças em Wammy's House. Minhas visitas a ela não surtiam muito efeito, apesar de ela ser uma boa pessoa.
- Certo. - repeti. Naquela altura o nó na garganta já tinha passado e o buraco da camada de ozônio, ops, a dor no peito tinha diminuído para a habitual dor. - Obrigado por vir, Watari. - forcei um sorriso. Detesto forçar sorrisos.
Ele sorriu novamente e andou até a porta, o segui com o olhar e ele parou e se virou para mim.
- Você consegue, Alpha. - e foi-se.
Direcionei meu olhar para o teto, pensando nas palavras que Watari acabou de pronunciar. Rapidamente meus olhos ficaram marejados e logo as lágrimas quentes escorriam pela minha bochecha. A camada de ozônio voltara. Chorar sempre alivia um pouco as dores, as deixando mais suportáveis, não como se cortar, é claro, mas alivia.
Oh, Bey, onde você está agora? Está bem? Está preocupado comigo? Não se importa? Oh Deus, faça-o estar bem...
As lágrimas se intensificaram e quase senti vontade de rir. De mim mesmo, obviamente, mas achei completamente cômico o fato insano de eu estar ali, com os braços com esparadrapos, depois de uma tentativa de suicídio, chorando loucamente da minha própria desgraçada e ainda me preocupando com ele. Justo aquele que foi um dos meus motivos de estar aqui, justo aquele que pode estar bem sem mim, aliás, sem qualquer pessoa...
Mas ainda desejo que ele esteja bem.