Era isso que eu era no coração de Beyond Birthday. Se ele tiver um coração, é claro. Desde que o conheci ele era frio como o inverno. Talvez porque ninguém falava com ele por causa da coloração de seus olhos. As crianças davam passos para trás apenas de ver aquele vermelho.
Mas eu não tinha medo daquele vermelho.
Muito pelo contrário, eu ficava hipnotizado pela cor. Um circulo que começa em um tom mais escuro nas bordas, como vinho, depois vai ganhando um tom mais vivo, como sangue, logo volta a escurecer até chegar no preto. A pupila.
Aqueles olhos me tiravam de órbita.
Você é difícil de se abraçar
Complicado para se conversar
Sempre distante. Não importa se eu estiver colado a seu corpo, como nas noites de inverno, vai sempre parecer que temos a mesma distância de Plutão para o Sol.
Ele é Plutão. Frio. Escuro. Distante de todos.
Eu sou o Sol. Quente. Iluminado. Próximo de todos.
Nunca tive problemas em fazer amigos na Wammy's House. Meu cérebro permite-me memorizar todos os nomes e rostos da instituição assim como o conteúdo dos livros. Inclusive, lembro de quando conheci Beyond, há anos atrás. Quando vi aquele vermelho pela primeira vez...
O ser se destaca na paisagem. Havia apenas tons vivos e claros no jardim. Borboletas amarelas voando, a grama verde bem cortada, as poucas flores de cor violeta e o Sol iluminando tudo. Menos de baixo da árvore, onde repousava o garoto sentado com as costas na árvore. Seus cabelos eram negros, assim como a camiseta de manga comprimida, a pele era pálida como a da um cadáver, os olhos estavam fechados e um livro estava em seu colo.
- Quem é você? - perguntei sem pensar. Eu nunca o havia visto antes.
Subitamente, os olhos se abriram, revelando todas as cores.
Ele não respondeu. Apenas me fitou durante um longo tempo, até que abriu a boca. Sua voz era rouca e seu tom seco.
- B. Apenas B.
Depois disso, não nos falamos mais. Até que nos colocaram no mesmo quarto. Durante aquele período, eu ficava cada vez mais curioso sobre o garoto de olhos vermelhos. De alguma forma, eu nunca conseguia me aproximar dele. Sempre me perguntei por que apenas com ele eu sou tímido.
Viramos amigos depois de uns meses.
O tempo passou e viramos amantes.
Mas eu não sou o protagonista do coração dele. Eu sou um coadjuvante.
Você não me ama, grande coisa
Eu nunca te direi como me sinto
Eu não quero demonstrar fraqueza na frente dele. Eu não posso simplesmente chegar a dizer como me sinto sendo nada para ele. As vezes eu queria ser aquele que fica no controle. Aquele que não está sendo machucado. Mas não, eu amo muito ele para o machucar.
As vezes eu te ignoro
Para que eu me sinta no controle
Porque na verdade eu te venero
E não consigo te deixar sozinho
Mas afinal, não tem como o deixar sozinho. Eu que estava sozinho. Naquela cama, no nosso quarto, esperando ele voltar. O fiz prometer dormir comigo hoje porque estava tendo muitos pesadelos, mas quando soube que L está no orfanato já sabia que a promessa seria quebrada. E não posso chamar isso de traição porque o que temos não é real.
L é o protagonista no coração de Beyond. E não eu.
Ouvi a porta ser aberta e fechada suavemente. Ele sentou na beirada da cama e pude ver que carregava um objeto na mão.
Uma garrafa de vodka.
Venha, querido, vamos ficar bêbados
Esquecer que não nos damos bem
- Encontrei na cozinha quando estava procurando geleia de morango. Não sei oque isto fazia lá. - falou enquanto abria a garrafa.
Me levantei e sentei ao lado dele. Ficamos em silêncio bebendo o líquido que passava ardendo na minha garganta. Anestesiava toda a dor que eu estava sentindo.
- O que você sente em relação a mim? - sempre fui fraco com bebida. Já estava bêbado, os sentidos já estavam deixando a desejar...
Sim, eu espero que você se abra
Entregue-se a mim
- Não me faça perguntas difíceis.
E o pior de tudo é que eu gostaria que ele fosse feliz. Feliz com L. Porque eu sei que ele se sentiria muito melhor apenas com ele, sem As intrusos em sua vida. Mas eu não consigo.
Mas nada acontecerá, nunca te deixarei ir embora
Nunca te deixarei ir embora
O mais velho se levantou e deitou-se na própria cama. Realmente se esqueceu da promessa.
O sentido da minha vida está começando a desaparecer. Mas será que ele por menos já existiu? Qual é ele, mesmo? Substituir uma pessoa? Só? Não sirvo mais para nada? Beyond já está começando a me ultrapassar nas provas...E os remédios para depressão não ajudam. Nem psicólogos.
Olho para o lado e vejo Beyond adormecido. Talvez...Talvez seja a hora.
Pego um papel e um lápis na escrivaninha do meu quarto e escrevo apressadamente poucas palavras.
Levantei-me lentamente em direção ao banheiro de nosso quarto, acendi a luz e fechei a porta. Me dirigi mecanicamente ao armário em baixo da pia, onde estavam as lâminas. precisava de apenas uma. A peguei e a observei de perto.
- Olá, velha amiga. - sussurrei.
Liguei a água da banheiro enquanto me despia e deixei a lâminas na borda. Coloquei um pé, testando a temperatura da água. Antes mesmo de perceber já estava com o corpo submerso do peito para baixo.
Observo as cicatrizes no meu braço. Horizontais, uma abaixo da outra. Lembranças.
Cuidadosamente pego a lâmina e faço um corte no braço esquerdo na vertical do meu pulso até um pouco abaixo do cotovelo.
''Se quiser realmente se matar, corte na vertical''.
O sangue escorria. Sentia como se toda minha dor estava indo embora junto com ele. Repeti o mesmo processo, com um pouco de dificuldade devido ao ferimento, no braço direito. Deixei meus braços caírem ao lado do meu corpo na água. Observei a água com a coloração avermelhada e sorri.
Eu estava planejando isso a muito tempo. O dedo já estava no gatilho, Beyond apenas deu o tiro. Meu porto seguro, minha fortaleza, aquilo que me segurava...
O sentido.
Quase parece uma piada
Interpretar um personagem
Quando não se é o protagonista
No coração de outra pessoa
Talvez eu não o ame de verdade porque no fundo, preferia que ele ficasse comigo ao invés da pessoa que realmente o faz feliz.
Você sabe que prefiro caminhar sozinho
Do que fazer papel de coadjuvante
Se eu não conseguir ser o protagonista
Talvez eu seja mais insignificante que um coadjuvante. Talvez figurante.
Senti meu corpo começar a amolecer. Fechei os olhos e me concentrei em imaginar aqueles olhos. Sorri levemente com o pensamento. As palavras que rabisquei vieram a minha mente.
Eu te amo, B.
Ps: Diga a L que o palco agora é só dele.
Eu realmente não posso ser o protagonista.
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Então, essa é minha primeira fanfic de Death Note. Inspirada na música Starring Role - Marina and the diamonds.
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Então, essa é minha primeira fanfic de Death Note. Inspirada na música Starring Role - Marina and the diamonds.
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